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Alma no Olho: o olhar como território de poder

Alma no Olho, filme de 1974, dirigido por Zózimo Bulbul traduz em imagens o que a crítica literária estadunidense bell hooks fala sobre o olhar opositivo, aquele que confronta e muda a realidade
Camila Soares* /Especial para o Alternativo16/10/2021
Alma no Olho:  o olhar como território de poderDivulgação

São Luís -


Oolhar, aquele que se vê, se sente e se expressa. O olhar, aquele que faz refletir, questionar e repensar. O olhar dedicado análise, à identificação, à representação. O olhar que coloco nesse momento é aquele capaz de mudar a perspectiva, o que tem o poder de transformação.
Alma no Olho, filme do ator e, inaugurando o título, diretor Zózimo Bulbul traduz em imagens o que a crítica literária estadunidense bell hooks fala sobre o olhar opositivo, aquele que confronta e muda a realidade. Zózimo foi o primeiro diretor negro a dirigir um filme em 1974, inaugurando assim o cinema negro no Brasil.
Para hooks esse olhar é um desafio à autoridade e Zózimo chega ao meio e entende que o olhar opositivo, o que não só contra narra, mas que constrói outras narrativas tem o poder de demarcação do olhar, o que é um instrumento de poder para o povo preto em diáspora.
Alma no olho começa com a trilha musical de Jonh Coltrane, Kulu Sé Mama, a quem Zózimo dedica o filme. O ator entra em cena em close up no rosto evidenciando seus olhos, que olham para direita, esquerda e depois para frente, havendo a quebra da quarta parede, quebrando a barreira imaginária que separa o ator do público. Nessa quebra o ator fala diretamente com o outro, mas também é expectador de si mesmo. Zózimo que roteiriza, dirige, atua e monta seu primeiro filme, constrói a sua presença na tão prolongada ausência de imagens negras positivas na cinematografia nacional.
O close up do primeiro plano do filme ser nos olhos do ator conversa diretamente com o relato da experiência do olhar de bell hooks que é o grande direcionador de sua pesquisa na obra Olhares Negros: raça e representação e relata que na infância foi muito punida por encarar, aquelas olhadas diretas que as crianças fazem com os adultos quando não aceitam ou quando não estão conformadas com o que foi feito ou dito, esses olhares eram interpretados como a chamada para um confronto, como desafio à autoridade, uma espécie de resistência. O olhar é território de poder.

É nessa quebra da quarta parede que o ator encara o público ao começar narrar a história dos negros em África; no lugar de confronto e afirmação de quem vai contar sua trajetória até chegar no Brasil. Nos planos seguintes, porém, ele afirma seu corpo num como primeiro território e em uma perspectiva do seu olhar sob seu próprio corpo o apresenta formas opositivas das imagens sexualizadas que eram e são exploradas até hoje pela cinematografia e mídia em geral.

Vale ressaltar que Zózimo Bulbul era fortemente influenciado pelos ideais pan-africanistas e essa ligação com sua ancestralidade enquanto negro em diáspora foi bastante ressaltada neste filme, na apresentação de seu corpo como narrador da história, ele mostra-o como seu primeiro território, território este que, apesar da colonização, não foi destruído e nem conquistado.

O ator interpreta vários personagens, após os planos em que evidencia partes do seu corpo, surge um segundo personagem, também interpretado por ele, com vestes africanas, enquanto o outro está nu. Logo esse personagem que estava nu está com uma algema de correntes brancas nas mãos, preso e acuado, com o corpo retesado e sufocando num estado de dor e tortura, interpretando as péssimas condições que essas pessoas foram sequestradas e trazidas ao Brasil. Logo em seguida está no campo, escravizado e ainda assim acorrentado com vestes brancas, outros negros africanos escravizados estão no mesmo campo, na cena seguinte o ator mostra como as manifestações culturais afrodiaspóricas vão ocorrendo, movimentos de resistência simbólica e cultural como a capoeira, o toque do tambor e o jogo de bola.

Em um dado momento em que um dos personagens acorrentado está com outras vestes brancas ele esconde a corrente da algema no bolso e tira o chapéu como se estivesse pedindo dinheiro para quem passava, esse momento é sinalizado historicamente pela assinatura da Lei Áurea e a falsa abolição da escravatura, aonde negros libertos, permaneciam sujeitos a trabalhos nas lavouras e sem perspectiva muito deles foram para as ruas. Mas há uma ascensão social, advinda da luta dos movimentos de libertação negra, ele já está em outros trajes e consegue, enfim, quebrar a corrente branca, tornando-se livre. Liberdade também é poder falar de si e do seu povo através da sua perspectiva, como disse Nina Simone: Liberdade é não ter medo.

Viva o cinema negro de Zózimo Bulbul!

Camilia Soares é bacharel em História e pesquisadora de cinema negro no Brasil

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