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"A Ânsia do Prazer" em nova publicação

Duas décadas após lançamento, livro de José Ewerton Neto ganha nova edição; obra recebeu o prêmio Graça Aranha, na categoria romance, em 1995
16/10/2021
"A Ânsia do Prazer" em  nova publicaçãoMatheus Soares

São Luís- A Ânsia do Prazer romance de José Ewerton Neto que recebeu o prêmio Graça Aranha, categoria romance , em 1995 despertou desde cedo o interesse do público e de escritores consagrados como José Louzeiro e José Chagas pelo inusitado do tema, a trajetória de um personagem, G-Dimension, um objeto de prazer híbrido entre máquina e humano pelo mundo das fantasias femininas . O mais curioso ainda, narrando sua própria história.

A edição esgotada, a narrativa vibrante e a adequação do tema às mais inovadoras perspectivas científicas atuais, 20 anos após sua primeira publicação, propiciaram o retorno do romance às livrarias, agora pela editora SLZ, uma editora que gradativamente marca sua presença no mercado local, ao mesmo tempo em que se insere na plataforma virtual da Amazon o que permitirá que leitores de todo o país tenham acesso ao livro.

O romance que mereceu do poeta José Chagas na apresentação do livro os dizeres “ O romance nos revela assim não só a angústia das mulheres sedentas de sexo como a angústia do objeto consolador de que elas se servem, tão ardoroso, tão potente e , ao mesmo tempo, tão castrado.” , em sua segunda edição já foi capaz de sensibilizar vozes femininas da envergadura da poeta paulista Leila Miccólis que, assim se referiu ao conteúdo do livro.

Leila Miccólis
Poeta


Com um mínimo de folga ontem, peguei o romance, e já pela capa pensei, curiosa: como é que o autor vai levar esta ideia adiante? Enredos com plot de coisa (objetos) para mim são os mais difíceis de serem desenvolvidos. Ainda mais em se tratando de um falo falante (digo, pensante e pulsante): qualquer movimento em falso poderia ser fatal, se o autor errasse a mão.

Pois dou-lhe os parabéns, realmente este livro tem méritos mais do que suficientes para ser premiado – outra raridade, porque o assunto em geral não é muito do agrado de júris literários, embora eu creio que os jurados tenham sentido o que sinto: que não se trata de um livro erótico comum, mas sim de um texto metafórico avassalador, tenso, denso, profundo, intenso, sobre as relações humanas e os papéis sociais convencionais a serem mantidos nesta nossa “sociedade do espetáculo”, como escreveu Llosa; e apresentado pela fala nada falocrata de um falo que analisa com sensibilidade a falocracia de uma sociedade que o nega, o condena, mas que, por baixo dos panos (literalmente) se delicia com seu uso... Excelente!

Também me lembrei de Heidegger, quando ele cita a teoria da coisidade sensualista das coisas para explicar a multiplicidade de dados sensórios diferenciados contidos em cada objeto (inclusive nas obras de arte); e é justamente esta coisidade da coisas que transforma um simples e prosaico consolo em um filósofo – sem que você precise apelar para inteligências artificiais –, e em uma testemunha (mais do que ocular) do carrossel de sensações e emoções dos personagens, revelando as contradições existentes entre a verdade e o simulacro, entre a realidade e a ilusão, entre a solidão e o jogo de aparências; sua perspicácia crítica ferina atinge com pontaria certeira diversas espécies de manipulações e de autoritarismos cotidianos arraigados, com humor e lirismo.

Surpreende-se o leitor o tempo todo até o instante final. Um tema forte, tratado com enorme sensibilidade, girando em torno da fragilidade de homens-e-mulheres-objetos, prisioneiros dos seus próprios preconceitos, das suas vidas sem prazer e sucessos vazios. atuando sempre no palco, mesmo estando em suas camas ou nos divãs de seus/suas analistas. E que melhor narrador destas cenas do que o G-Dimension, através do qual percebemos toda a Dimensão-Genial de seu autor?

Uma obra provocadora, que mesmo depois do livro fechado continua atiçando, açulando, incitando muitas outras leituras em mim e, tenho certeza, em todos os que não têm medo de entender o recado.

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