Cidades | História de São Luís

Um aglomerado formado a partir do "caos planejado": a Ilhinha

Com uma população prioritariamente formada por pessoas de classes menos favorecidas, a localidade ainda luta por melhorias; mesmo com avanços, moradores ainda reclamam
Thiago Bastos / O Estado09/10/2021
Um aglomerado formado a partir do "caos planejado": a IlhinhaPonte do São Francisco uniu a zona norte da cidade, até então despovoada, com o Centro (Paulo Soares / O Estado)

São Luís - Na cidade dos “Azulejos”, fundada há mais de quatro séculos, enquanto alguns bairros, como a Cidade Operária, por exemplo, surgiram a partir de uma política de reestruturação habitacional de São Luís e, com a anuência do poder público, a maioria das demais localidades do território ludovicense não passou por este processo.

A partir dos séculos XIX e XX, a cidade passou a ver este híbrido, ou seja, em meio a obras planejadas, elaboradas a partir de estudos prévios e com intuitos claros para o desenvolvimento, nasceram nichos que – devido à simples junção social – foram elaborados e ainda sobrevivem à base do voluntarismo e de outras iniciativas.

Um exemplo disso foi a Ilhinha (vizinha à sede do Grupo Mirante, situada na Avenida Ana Jansen), que está intrinsecamente ligada ao erguimento de uma estrutura que, conforme publicado em O Estado em fevereiro do ano passado, completou mais de cinco décadas, a partir da data de sua inauguração.

Para especialistas, a Ilhinha não se trata especificamente de um bairro, e sim de um aglomerado, citado como área de invasão.

Uma das razões para a formação da Ilhinha foi a Ponte do São Francisco. A sua concepção foi possível a partir do Plano de Expansão da Cidade de São Luís elaborado pelo Departamento de Estradas de Rodagem (DER), órgão rodoviário dos estados e Distrito Federal. Com este conjunto de metas, foi possível a construção da Ponte do Caratatiua que passou a servir, até o fim da década de 1960, como elo entre o núcleo central da cidade e a região das praias.

A O Estado, o ex-governador e presidente da República, José Sarney, enfatizou a necessidade de criação de outras vias neste período e que geraram, anos mais tarde, o surgimento de localidades como a Ilhinha.

“Havia, nesta época, um crescimento da cidade direcionado das partes mais altas às baixas, devido ao seu aspecto topográfico e peculiar. Era fundamental pensar no crescimento da cidade para outras áreas, além do São Francisco. Por isso, a Ponte [do São Francisco] foi importante e permanece como um grande legado”, explicou.

Foi a partir da iniciativa do então governador José Sarney, respaldado tecnicamente por Rui Mesquita, que outros nomes foram convocados para a missão, como José Reinaldo Tavares e Vicente Fialho, este último membro do DER e que se tornaria, antes da inauguração da ‘Ponte do São Francisco’, prefeito da capital maranhense.

Se por um lado, a construção propiciou a expansão e evitou o estrangulamento da cidade, por outro, registrou o surgimento de locais que, sem preparação anterior, surgiram e se fixaram na cidade. Um deles foi a Ilhinha.

A Ilhinha: surgimento a partir da ausência de planejamento
Até a década de 1950, com sucessivas tentativas de transformação social e ideia do governo à época de colocar a capital no cenário das grandes cidades brasileiras, São Luís contabilizava uma meta não-cumprida de construção de um polo industrial.

Para atrair novos negócios, foi necessário basicamente o investimento em infraestrutura urbana. O objetivo do poder público era também ocupar a chamada zona norte da cidade, polo conhecido atualmente como “o outro lado” da ponte, já que a cidade estrangulava do Anil até a região central, com a construção de casas sem nenhum planejamento urbano. A porção Norte era ocupada por pescadores e apenas algumas casas isoladas.

Em 1970, por interferência direta do então governador José Sarney, a capital maranhense recebeu a Ponte José Sarney. Construída em tempo “considerado recorde” na ocasião, a ponte representava a ligação entre o “núcleo central” da cidade e o restante do eixo até as praias.

Era uma cidade que se reavivava, a partir de obras como a Ponte do São Francisco ou outras intervenções, como o Plano Rodoviário de 1962.

A partir da expansão com a construção da ponte, o primeiro bairro a se consolidar foi o São Francisco. Era uma localidade que, devido à origem mais elitizada, propiciou a construção de casas mais robustas, com ruas largas e planejadas.

Pessoas de outras partes da cidade e que viviam da pesca de subsistência passaram a residir, em um bairro próximo ao São Francisco, pequenas casas. Quase simultaneamente ao São Francisco, surgiu a Ilhinha, cujas origens remetem a outras explicações.

O favorecimento da ocupação da então Ilhinha, que surgiria de maneira totalmente informal, se deu com o enquadramento da região como área de ocupação residencial. Era uma ideia do poder público e da gestão municipal à época de direcionar o crescimento para as classes médias e altas até a área do Araçagi, partindo da Ponta d’Areia.

SAIBA MAIS

De acordo com o trabalho acadêmico intitulado “Análise Toponímica de 81 nomes de bairros de São Luís”, de Heloísa Reis Curvelo, o crescimento urbano “da área do São Francisco” exigiu – por exemplo – o surgimento de vias (como a Ponte do São Francisco ou Ponte José Sarney) para o projeto de expansão da cidade, em especial durante a década de 1970.

Segundo a pesquisa, o surgimento da chamada “povoação da Ilhinha” está relacionado ao aterro da Ponta d´Areia. Foi a partir, de acordo com o levantamento, do surgimento da Lagoa da Jansen que surgiu a Ilhinha.

Os primeiros moradores se constituíram por “pessoas humildes” que formaram suas palafitas e passaram a residir na localidade atualmente conhecida. Por característica de uma “pequena” Ilha, receberam o nome de Ilhinha. Com o passar dos anos, outros moradores se juntaram e formaram a concentração social.

Por se tratar de uma concentração eminentemente popular, problemas ainda não foram integralmente sanados, como saneamento básico e infraestrutura. Outros setores como saúde e transporte público também não atendem a população, de acordo com os próprios moradores. Mesmo assim, a Ilhinha é motivo de orgulho.

O “filho ilustre”

Um dos filhos ilustres da Ilhinha é o jogador maranhense Márcio Araújo. Atualmente no elenco do Sampaio Corrêa, que disputa a Série B do Campeonato Brasileiro, o atleta foi a prova de que, mesmo com origem humilde, é possível com perseverança e vontade, vencer na vida.

Personagem de O Estado na edição de 14 de abril de 2014, Márcio Araújo fez a família na ocasião celebrar o gol do título do Flamengo, time defendido por ele à época, contra o Vasco da Gama no Maracanã. Ainda que irregular, o gol – validado pela arbitragem – foi muito comemorado pela família.

À época, O Estado esteve na casa de Márcio, na aglomeração “famosa”. Quem recebeu a equipe foi a mãe do atleta, Berenice Rodrigues. Segundo ela, na ocasião, o gol “foi o grande momento de sua vida”.

Durante a entrevista, um dos irmãos de Márcio Araújo, Paulo César Rodrigues, chegou à residência da família e não escondia o sorriso, apesar de o coração dele ter batido naquela final por outro time. “Sou vascaíno. Mas gol do meu irmão é muito forte, é algo marcante”, disse.

Atualmente, Márcio Araújo reside na capital e cumpre contrato com a “Bolívia Querida”, após passagem sem sucesso pelo Sport (PE) e CSA (AL).

Leia mais notícias em OEstadoMA.com e siga nossas páginas no Facebook, no Twitter e no Instagram. Envie informações à Redação do Jornal de O Estado por WhatsApp pelo telefone (98) 99209 2564.

© - Todos os direitos reservados.
Tamanho da
Fonte