Opinião | Artigo

Os melhores tempos de nossas vidas

Antônio Augusto Ribeiro Brandão *09/10/2021

Então, como tudo vai mudar – e já está mudando -, para o bem e para o mal, lembro de Caxias daqueles tempos tendo nos cinemas a sua maior diversão, ouvia-se muito rádio e lia-se, com atraso considerável, a revista ‘O Cruzeiro’; os serviços de alto falantes encarregavam-se do noticiário local e de embalar os corações enamorados de moças e rapazes a rodar, sempre em sentido contrário, na Praça Gonçalves Dias, bem diferente do que se afigura, doravante, tudo muito automatizado e virtual.

Não pensem que sou contra o progresso, mas, para não falar de outras ‘modernidades’, prefiro continuar acreditando no livro impresso, por exemplo, insubstituível no ato de ler com atenção e compreender o que está escrito, sem distrações por perto; a prova do que estou dizendo é que acabei de lançar minha quinta produção literária.

Trabalhei até os 86 anos, sou membro de Academias de Letras - agora Honorário – e de outras Instituições voltadas à cultura, no Brasil e no exterior; tenho computador e celular, frequento as redes sociais e o WhatsApp, tudo com muita moderação.

Voltando às gratas lembranças, tenho certeza: os quinze anos posteriores à Segunda Grande Guerra foram os melhores do século XX, pelo menos para a geração à qual pertenço. Do seu final lembro-me bem, porque morávamos no Largo da Matriz e, naquele dia de maio de 1945, os empregados da loja Rianil, soltaram foguetes e ouviram o Hino Nacional.

Em 1946, comecei a torcer pelo Fluminense e, no mesmo ano, ingressei no então famoso Ginásio Caxiense, com a direção sempre lembrada do professor Lafayette de Mendonça.

Em dezembro de 1954, fui para o Rio de Janeiro, ainda sem a violência dos dias atuais, pois se andava de bonde, da Cinelândia à Copacabana, tarde da noite, sem nenhuma perturbação; em 1959, conclui meu curso de Economia, tornando-me mais tarde o decano dos economistas maranhenses. Em um suceder de bons acontecimentos, depois viriam o meu casamento com a Conceição, em 28/01/1961, nascimento dos meus quatro filhos: Marcos, Márcio, Mônica e Brandão Neto e dos meus cinco netos Ciro, Camila, Hugo, Ingrid e Davi.

Em Caxias, na década de 40, principalmente, era época dos grandes musicais do cinema: o Cine Rex exibia-os às terças, na ‘Sessão das Moças’, intensamente frequentada pelos (as) jovens de então e o Cine Pax, preferia as operetas e os seriados. Até hoje não compreendo como nossa cidade permitiu o total desaparecimento dessa inigualável forma de entretenimento e de cultura.

Os alto falantes complementavam o rádio e o cinema, e funcionavam em horários diferentes em uma concorrência sadia e proveitosa aos ouvintes, com discos importados do Rio de Janeiro. Depois surgiu o Gigante do Ar, inovando com sugestões de mensagens musicadas endereçadas às (aos) namoradas (dos).

Importantes mesmo eram os locutores: o ‘speaker’ da EEAP era vidrado nas canções do Dick Farney, precursor da ‘bossa nova’, e fã dos boleros do Gregório Barrios; fazia-os tocar, incessantemente, para o próprio prazer e dos ouvintes também fanáticos. O locutor da EPOS fazia o estilo mais romântico, apreciador das valsas cantadas por Orlando Silva e Sílvio Caldas, e de outros ritmos interpretados por Carlos Galhardo e Nelson Gonçalves.

Na EPOS, sempre tocava o ‘Cinema do Ar Lever’, propaganda do famoso sabonete das estrelas do cinema; narrava a história de algumas delas, suas participações em filmes, suas interpretações de musicais gravados na memória. Quando estive a primeira vez em Nova York, em 1980, ainda com suas famosas torres gêmeas do World Trade Center, tive facilidade em reconhecer locais da ilha de Manhattan e de escolher peças em teatros da Broadway, como a que assisti estrelada por Mickey Rooney (1920-2014) e Ann Miller (1923-2004). Eram as lembranças bem presentes do Cinema do Ar.


* Economista. Membro Honorário da ACL, da ALL e da AMCJSP. Filiado ao IWA e ao ELOS Literários


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