Opinião | Artigo

Debaixo do piquizeiro

Jean Nunes *09/10/2021

Impressionei-me com a altura do piquizeiro. Um arranha-céu de mais de vinte metros de altura. Tronco largo, copa exuberante e uma paciência admirável para um ser que estava debaixo do sol àquela hora do dia. O senhor Sebastião percebeu meu deslumbre: O doutor já tinha visto algum desses?

Algumas perguntas despretensiosas conseguem abrir caixinhas guardadas nos cantos mais escondidos de nossa memória. Fui longe. Lembrei-me da infância e do pé de azeitona que ficava na frente de casa. Havia muitos pés de azeitona nas redondezas. Mas aquele era o preferido, e não apenas pelo sabor. Era ali, em suas raízes emersas, que sentava o corpo franzino para descansar, enquanto contemplava o acender das luzes no céu e tangia o pensamento no rumo dos carros que passavam na estrada.

Vovó dizia que ele tinha sido plantado para mim, muito antes de eu nascer. Nunca duvidei disso. E nem poderia. A árvore me deu diversas provas de seu afeto. Um de seus galhos se estendia na direção do chão exatamente à altura do alcance dos meus pequeninos braços e o seu tronco, antes de se ramificar, esculpiu um assento para que o utilizasse como cela de um alazão, cabine de um dos foguetes que via cortar os ares ou mesmo como proa de um desassombrado navio pirata. Tudo apenas para me agradar.

Apesar de imensa, ela não era invencível. Murchou na luta desgastante que travou contra o cupim e suas folhas tremeram, nervosas, quando os homens se aproximaram para derrubá-la. Fui eu que a salvei. Coloquei-me, à frente dos machados, e, valente, anunciei que de lá só sairia se eles fossem embora. Ainda tentaram subir nela, para me demover do atrevimento. Mas na copa, lá no alto mesmo, somente a mim ela deixava subir. O perigo foi embora e suas folhas serenaram. Foi nesse dia que lhe dei um nome, que guardo em segredo até hoje. Talvez contasse a Rubem Braga, que tanto afeto tinha por seu pé de milho.

Envolvido como fiquei nas lembranças, nem percebi que já não era mais apenas o senhor Sebastião que me ouvia. Jovens, idosos e crianças se distribuíam entre cadeiras e aflições que brotavam das raízes espalhadas debaixo daquela sombra.

O senhor Sebastião sorriu, pensativo, como se minhas histórias o tivessem levado longe também. O seu piquizeiro era diferente. Não tinha nome e nem galhos baixos. Mas tinha história. Havia sido plantado por suas mãos, há exatos 70 anos. Hoje ele faz ano, disse com a imagem da saudosa mãe espelhada nos olhos marejados:

– Ela era uma mulher da terra, “num sabe”!? Pegou uma muda do pequi e deu “pra eu” e meu irmão plantar. Todo dia a gente tirava água daquele riacho, que o senhor está vendo ali na ribanceira para aguar ele.

Respiramos um pouco, em silêncio, para que então iniciássemos a reunião. Exatamente onde estávamos, a comunidade havia surgido e era em torno dele, do piquizeiro, que a luta para proteger tudo quanto construíram e amavam surgiu e se fortaleceu. Um a um, os lavradores foram colocando no chão de areia o que os afligia. Injustiças foram debulhadas quais favos de feijão. Plantei informações, cultivei um pouco de tranquilidade e colhi a solidariedade de todos.

Ao final, o senhor Sebastião agradeceu e traduziu a esperança do seu povo:

– A gente está no cume desse piquizeiro, doutor, “há muitos tempos”. Já “espantamo” foice, machado e até trator. É hora de descer.


* Defensor público estadual, titular do Núcleo de Direitos Humanos da DPE-MA, mestre em Políticas Públicas (UFMA) e professor da UEMA

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