Opinião | Artigo

A cultura do encontro na  onlife

Natalino Salgado Filho *09/10/2021

Um importante sodalício alcançou uma década neste 2021: trata-se da Academia Fides et Ratio da Arquidiocese do Rio de Janeiro. A efeméride está sendo comemorada com uma série de simpósios para debater temas atuais que sempre instigam debates riquíssimos sobre “Doenças raras: um desafio para a humanidade”; “Bíblia e salvação: uma experiência humana salvífica”; “Cabe falar de fronteiras hoje?”; “A igreja após a pandemia”; “50 anos do mês da Bíblia e carta aos Gálatas”; “Convivendo com as novas tecnologias” e, no último sábado, 2.10, a discussão girou em torno das “relações digitais na cultura do encontro”, com a participação de Marcos Kalill, consultor do Unicef, no Rio de Janeiro; Andréa Gripp, estudiosa dos temas fé e cultura digital, com interlocução do Padre Arnaldo Rodrigues, doutor em Comunicação Social pela Universidade La Sapienza de Roma.

A tarde foi memorável. O padre Arnaldo nos chamou a atenção para o fato de que, em um futuro bem próximo, a propagação da fé e a evangelização terão quase que integralmente a mediação das novas plataformas digitais e lembrou que, na encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco – publicada em outubro do ano passado – já é mencionada a “fraternidade aberta” que, em suas palavras, “permite reconhecer, valorizar e amar todas as pessoas independentemente da sua proximidade física, do ponto da terra onde cada uma nasceu ou habita”.

Os estudiosos afirmam que estamos na era da quarta revolução tecnológica, em que a mudança não é mais linear, mas epocal, como comentou Andréa Gripp. A pesquisadora discorreu sobre o solapamento da paciência numa época de relativismo filosófico e plural e de pluralismo religioso imersos na cultura digital, que não dizem respeito apenas às máquinas, mas também às pessoas. É uma nova cosmovisão. Na vida – ou na onlife, no dizer do filósofo italiano Luciano Floridi, o real e o virtual se confundem – acontecem simultaneamente onde estamos presencialmente e remotamente.

Marcos Kalill, por sua vez, trabalhou, com base na “Parábola do Bom Samaritano”, com conceitos do bem; da amizade social: sobre como construir uma arena onde convivem as diferenças, num profundo esforço de diálogo; do próximo – sobre o chamado a se aproximar de outros distantes, pelos mais diversos motivos.

No decorrer da palestra, diversas informações nos levaram a fazer nossas próprias constatações: é assustador perceber o crescente apego dos brasileiros às redes sociais. Por exemplo: a média diária de conexão nas plataformas de interação é de 5h. Vivemos numa rotina acelerada, premida pela instantaneidade, onde as categorias dentro/fora, aqui/ali foram redimensionadas. Movimentar-se é sinônimo de vida nesses ditos novos tempos, sob pena de estarmos à margem da própria existência. A forma de fazer amizades também mudou: proximidade não significa intimidade; convivência deixa de significar disponibilidade.

Mas nem tudo deve ser demonizado. Equilíbrio é a palavra-chave. Não é possível retornar ao mundo de antes da pandemia. O virtual, também com sua carga de real, é inexorável. O Papa Francisco comenta, em sua encíclica, que a falta de acesso à tecnologia pode criar um fosso entre classes e atrasar o desenvolvimento, principalmente do ponto de vista educacional. Mas, nesse mundo dominado pelos algoritmos, proporcionar inclusão e acesso é também uma forma de abraçar e proporcionar a otimização do encontro.

Não à toa, o bispo anglicano africano Desmond Tutu – que comemorou 90 anos, na última quinta-feira, 7.10, insiste na verdade de que “uma pessoa é uma pessoa por intermédio de outras pessoas”. A interação entre as pessoas sempre vai ocorrer – independente dos cancelamentos e das formações de bolhas, na rede, que, como lembrou o Padre Arnaldo, criam a cultura da polarização.

Como bem resumiu o Papa Francisco em seu livro “A vida após a pandemia”, viver requer “coragem de inovação, experimentando novas soluções e empreendendo novos caminhos”. Cabe a nós preservarmos a humanidade que nos diferencia e nos convida a combater a cultura do conflito pelo diálogo, pelo estímulo ao encontro e ao respeito às diferenças, próprio das relações verdadeiras de um mundo civilizado, coerente, coeso e cristão.

* Médico Nefrologista, Reitor da UFMA, Titular da Academia Nacional de Medicina, Academia de Letras do MA e da Academia Maranhense de Medicina

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