Cidades | Fé e proteção sanitária

Espíritas e membros das religiões afro opinam

Além do catolicismo e dos evangélicos, outras religiões registram importância e relevância na sociedade maranhense e em outros estados
Thiago Bastos / O Estado17/04/2021

São Luís - Além do catolicismo e evangélicos, outras religiões registram importância e relevância na sociedade maranhense e em outros estados. Segundo o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010, 2% dos brasileiros se declararam espíritas. O levantamento ainda registrou que 0,3% eram seguidores da umbanda e do candomblé. Essa diversidade demanda que o respeito à crença religiosa seja a tônica das relações sociais.

O Estado apresenta representantes destas classes que opinam quanto à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que manteve a legalidade do estabelecimento de proibições de manifestações religiosas no estado de São Paulo, com clara repercussão em outros territórios. Membros do espiritismo e das religiões de matriz africana também opinam.

Espiritismo: prudência e manter solidariedade
Dados do Conselho Espírita Internacional apontam que o espiritismo é representado em 36 países ao redor do mundo. No entanto, o Brasil atualmente seria um dos territórios de maior representatividade. Aponta-se que 3,8 milhões de brasileiros são considerados ou se declararam espíritas.

Representantes do espiritismo citaram a O Estado que o parecer do STF era cumprido anteriormente. O psicólogo humanista e representante do Centro Espírita Francisco de Assis, Artel Mafra, afirma que o local – que anteriormente mantinha com restrições a agenda de reuniões e atividades – passou a evitar quaisquer aglomerações. “Recebemos o parecer do Supremo com muita tranquilidade, ciente de que as medidas são mais do que necessárias, sem dúvida. Qualquer forma de proteção à vida é necessária. Logo, antes mesmo da decisão do Poder Judiciário, decidimos em comum acordo com os frequentadores suspender as agendas no centro como forma de evitar a contaminação”, disse.

Por enquanto, segundo o dirigente, não há previsão para a retomada da agenda normal de atividades. Apesar da ausência física dos praticantes, a agenda online foi consolidada, com a promoção de cursos que ofertam o aprofundamento da doutrina espírita (com cunho científico-filosófico, de acordo com os defensores e originária do século XIX). “Nossa mobilização nas redes sociais, quanto ao aprofundamento das questões ligadas à pandemia e o entendimento da doutrina espírita, somente se consolidaram, ainda que sem as reuniões”, disse .

Com proteção sanitária, o Centro Espírita Francisco de Assis, situado no Centro de São Luís, alimenta pessoas que, porventura, não tenham um prato de “comida” na mesa – independentemente ou não da pandemia. “Temos o cuidado de manter o distanciamento nestas atividades, que são fundamentais, já que priorizam a alimentação”, disse.

Além da entrega de cestas básicas, entidades ligadas ao espiritismo mantém a entrega de sopas para nutrir pessoas em situação de vulnerabilidade. Um dos preceitos mais fortes do espiritismo se baseia justamente nisto: no amor ao próximo. Sentimento mais aflorado com a pandemia em todo o mundo.

Membros de matriz africana
A palavra Axé, para os membros das religiões de matriz africana significa o pedido de “força e de vitória”. Este é o principal pedido dos seguidores do culto afro que, na capital maranhense, apesar de um percentual baixo em comparação a outras religiões, possui um nicho e uma concentração forte de seguidores.

Um dos bairros mais emblemáticos neste sentido é o da Liberdade, de formação e consolidação centenárias e cuja descendência quilombola estimulou o aparecimento de terreiros. Um deles é o Ilê Ashé Oba Yzôo (tambor de mina), comandado pelo Vodunsó Ahunsidahou (ou pessoa indicada como o consagrado ao vodum) Wender Pinheiro.

Ele concorda com o parecer do Supremo. “Dentro deste contexto, a decisão do Supremo Tribunal Federal é a mais correta. A doença infelizmente ainda está com o cenário preocupante e diante da ausência a prioridade é ainda recorrer às medidas de restrição nos nossos trabalhos e cultos. A medida do Judiciário também pode inibir aqueles que, porventura, realizam trabalhos de forma oculta e sem autorização, contribuindo para o descontrole da doença”, disse Wender.

Para o pai Wender, ações ritualísticas internas – com base nos protocolos da Organização Mundial de Saúde (OMS) e do Governo do Maranhão – estão sendo feitas com limitação de participantes, distanciamento entre os envolvidos e cuidados com a higienização dos ambientes. “Desta forma, mantemos a nossa crença, até para passarmos de forma mais suave por toda esta situação”, disse.

SAIBA MAIS

A intolerância religiosa ainda sofrida por determinadas crenças

Dados oficiais do Disque 100 apontam que mais da metade dos casos de intolerância religiosa - conjunto de discursos de ódio e práticas ofensivas contra seguidores de determinado segmento religioso ou aos elementos, deuses e entidades – referem-se a locais ou personagens ligados a membros da religião de matriz africana.

O Estado aproveita a temática ligada às religiões diversas e traz à tona um tema que, independentemente da pandemia, ainda percorre a rotina dos frequentadores (poucos em geral em virtude das medidas sanitárias) de terreiros e pessoas que, por alguma característica (vestuário, acessórios e comportamento) explicitem suas afinidades com as religiões de matriz africana.

Um dos locais considerados como referências no segmento é o Terreiro Ilê Ashé Oba Yzôo, no bairro da Liberdade, em São Luís. Na comunidade, a intolerância não é vista em plenitude, porém em outros bairros, a situação é diferente.

“A intolerância religiosa, no nosso caso, é simplesmente a falta de habilidade ou vontade de conhecer e respeitar as diferenças. Na intolerância, independentemente das diferenças, há um abuso dos direitos universais. Retratamos isso na pele, como religiosos, que vivemos isso na pele infelizmente”, disse o Pai Wender Pinheiro.

Segundo a Lei nº 9.459, de 2007, a discriminação motivada pela religião é considerada crime e deve ser denunciada pelas vítimas. De acordo com a legislação, a pena neste caso é de um a três anos, além do pagamento de multa.

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