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Os heróis "da guerra" contra o coronavírus e os primeiros vacinados

Pessoas que estiveram na "linha de frente" durante toda a pandemia e têm uma história de dedicação ao serviço público foram os primeiros contemplados
Thiago Bastos / O Estado 23/01/2021
Após a vacinação, pessoas aguardam, em observação, por cerca de 30 minutos; profissionais de saúde recebem imunização na central

São Luís - “Tudo o que fiz durante este período de pandemia na lida no trabalho valeu a pena!”. A frase é de Domingas Ramos Alves, de 49 anos, a primeira profissional de saúde vacinada na capital maranhense contra a Covid-19. Moradora do Outeiro da Cruz, ela – com 16 anos de serviço público e conhecida entre amigos e familiares como “Pompom” - fez três procedimentos cardíacos e sofre com pressão alta.

Por essa razão e pela dedicação ao serviço público, “Pompom” foi escolhida para ser imunizada. Mãe de dois filhos, a profissional recebeu O Estado em seu apartamento.

Cidadã dedicada, a técnica de enfermagem lotada no Hospital Djalma Marques (Socorrão I) participou do controle epidemiológico desde o aparecimento dos primeiros casos da doença. “Realmente não foi fácil, tivemos muitos momentos em que pensamos em desistir. Parecia que não íamos dar conta, devido à gravidade da doença. Mas a união dos trabalhadores do Socorrão um ajudou a superar todos os problemas”, afirmou.

Ela, que enfrentou a Covid-19 no mês de abril e por isso precisou ser afastada das suas funções por três semanas – disse que, por ora, não sentiu nenhum efeito colateral devido ao imunizante. “Na hora, não doeu nada. Pelo contrário, até achei que não tinha tomado. Graças a Deus me sinto muito bem”, disse a técnica.

A profissional relembrou a surpresa quando soube que seria a primeira vacinada. “Fui informada pela direção do hospital. Realmente não esperava nada disso”, afirmou. O Estado fez questão de conversar com alguns funcionários do Socorrão I e constatou que “Pompom” é uma das colaboradoras mais queridas da unidade.

“Pompom” recebeu a primeira dose da vacina contra a Covid-19 aplicada pela Prefeitura na terça-feira, 19, um dia antes do prazo estipulado pelo próprio Município para a largada da vacinação na cidade. O ato – realizado no Socorrão 1 - foi acompanhado pelo prefeito da cidade, Eduardo Braide, pelo secretário de Saúde de São Luís, Joel Nunes Júnior e outras autoridades.

A primeira a receber a dose na capital foi imunizada por “outra guerreira” da saúde e experiente profissional.

Três décadas de serviço público e a primeira a imunizar
Com 36 anos de serviço público na capital maranhense, a técnica de enfermagem Conceição de Maria Lira Santos, de 57 anos, foi escolhida para aplicar a primeira dose na capital.

Mãe também de dois filhos e moradora do bairro da Liberdade, a profissional voltou para o combate direto à pandemia e atualmente é uma das pessoas que aplicam as doses no Centro Municipal de Vacinação, montado pela Prefeitura no bairro Cohafuma, em São Luís.

Segundo ela, a aplicação da vacina contra a Covid-19 obedece aos mesmos critérios técnicos executados em outras campanhas, como as da gripe, do sarampo e outras enfermidades. “Tanto no armazenamento como na inclusão da vacina na seringa e posterior manuseio da agulha, tudo é exatamente igual ao que deve ser feito em outras campanhas”, frisou.

Para ela, estar na dianteira do controle de uma doença tão letal valoriza a sua carreira. “Nunca pensei que a esta altura da vida ainda estaríamos envolvidos com uma pandemia tão grave. Mas com certeza isso vai passar, ainda mais com a chegada das vacinas”, afirmou.

Como estão estocadas as vacinas contra a Covid-19 na capital
O setor de Imunização da Prefeitura de São Luís é responsável pela estocagem das vacinas que chegaram e que serão enviadas para a cidade durante a ação de proteção dos cidadãos. O Estado esteve no setor e constatou que técnicos e funcionários foram preparados para esta missão.

Em uma sala previamente montada para esta finalidade, na Central de Imunização (situada em endereço na região do Centro), 10 geladeiras com capacidade para armazenamento de mais de 200 caixas de imunizantes foram destinadas.

Mediante recomendação técnica, os dispositivos de frio são programados para permanecer em temperatura interna entre 2 e 8 graus Celsius para conservação das vacinas. Além dos técnicos da pasta, vigilantes durante 24 horas fazem a segurança das doses no local.

A coordenadora de Imunização da Semus, Charlene Luso, afirma que as geladeiras contam com baterias internas que possuem autonomia de até 48 horas de carga de energia, nos casos de cortes no fornecimento. “Ou seja, em eventual problema, teríamos a garantia de que as vacinas manteriam o seu estado de conservação, conforme preconiza a fabricante e o Ministério [da Saúde]”, afirmou.

Conceição Lira, técnica em Enfermagem, aplica dose de vacina em profissional da saúde, na central

Centro de Vacinação recebe elogios
O Centro de Vacinação da capital completa, neste sábado, 23, o seu quinto dia em operação. Mobilizando técnicos da pasta e colaboradores em geral, o espaço – cedido pelo Sebrae – é o coração das ações imunológicas na cidade.

Por dia, são recebidas em média entre 2 mil e 2,5 mil pessoas em atendimento. A assistência ao público que recebe uma das doses é elogiada por frequentadores. “Nunca pensei que a gestão pública tivesse um atendimento de tamanha qualidade”, disse o funcionário público e lotado no Socorrão 2, José Wellington, que se vacinou no Centro.

SAIBA MAIS

Como funciona o Centro de Vacinação?

Ao chegar à Central, o usuário recebe uma senha para atendimento no setor de triagem. Nesta etapa, o profissional de saúde entrega a declaração oriunda do seu local de trabalho (onde está lotado ou lotada), além de apresentar documento com foto e a carteira profissional de exercício da função. Após a checagem, o usuário é encaminhado a uma das 10 salas montadas no Multicenter Sebrae com um total de 22 vacinadores, com capacidade de aplicação de até 200 doses por hora. Depois de receber a dose, o usuário aguarda por 20 minutos no setor pós-vacina, montado especificamente para avaliar possíveis efeitos adversos da vacina. Até o momento, nenhum paciente queixou-se de efeito do imunizante. Em média, todo o atendimento dura meia hora e são respeitados critérios de distanciamento social (cadeiras separadas para a avaliação inicial). Em toda a área interna do Centro, estão disponíveis totens para aplicação do álcool em gel nas mãos. Foram incluídas, ainda, demarcações no solo para separação dos usuários na entrada das salas de imunização e os frequentadores do Centro (ou seja, quem vai se vacinar e corpo técnico) são obrigados a portar máscaras.

ABRINDO O JOGO

“O controle da pandemia não ocorrerá de forma imediata mesmo com a vacinação”, aponta infectologista

Entrevistada: Maria do Remédios Freitas - Infectologista

A O Estado, a médica infectologista Maria dos Remédios Freitas disse que, devido ao processo lento de aquisição de doses durante a pandemia no Brasil e, por consequência, na capital, será necessário ter paciência para perceber os sinais positivos da vacinação. Segundo a especialista, “o atual cenário epidemiológico é ainda muito grave”. Para a médica, antes que a população esteja vacinada em cem por cento da cobertura estipulada, será necessária a implementação de outras medidas sanitárias, tendo em vista a inclusão de cepas ou outras formas do vírus no território nacional. Por fim, a especialista alertou para a importância imunológica da submissão à segunda dose da vacina.

Qual a margem dada pelos infectologistas para que a população comece a perceber a queda no gráfico de óbitos e casos da Covid-19 após o início da vacinação?

É necessária uma proporção alta de pessoas vacinadas para que se controle a pandemia. Por outro lado, a vacinação no Brasil está acontecendo de forma lenta, por conta da falta de insumos para produção das vacinas no país, assim como da dificuldade de comprar vacinas prontas de outros países. No Brasil, o atual cenário epidemiológico é muito grave, com aumento do número de casos e de óbitos, provavelmente devido à circulação de uma cepa viral de mais fácil transmissão e possivelmente mais letal. Consequentemente, antes que a maioria da população esteja vacinada, outras medidas para controle da pandemia deverão ser tomadas.

Instituições e especialistas estimam qual neste momento a margem de segurança da vacina Coronavac do Butantan aplicada do Maranhão?

Essa vacina é extremamente segura. Ela usa uma tecnologia bastante consolidada para produção de vacina, com vírus inativado, ou seja, morto. Uma proteína do vírus é apresentada ao organismo humano para que o corpo produza anticorpos. Uma vez que a pessoa entre em contato com o vírus da Covid-19, o Sars-Cov-2, terá capacidade de reconhecê-lo e combatê-lo. Ainda assim, a pessoa poderá pegar a Covid-19, mas se pegar, não fará formas graves e, portanto, não terá risco de morrer nem precisará ser hospitalizada. Isso é crucial para evitar que o colapso do sistema de saúde público e privado.

Por que razão é necessário tomar a segunda dose da vacina para garantir eficácia na proteção imunológica?

Tomar apenas a primeira dose da CoronaVac não é suficiente para garantir a proteção imunológica adequada. Quando a pessoa toma uma dose da CoronaVac, ela produz anticorpos que depois diminuem de quantidade, ou seja, ficam em número insuficiente para proteger a pessoa. Ao receber a segunda dose, o nível de anticorpos volta a subir, mantendo-se em quantidade suficiente para proteger o indivíduo. É importante ressaltar que após a segunda dose, o corpo da pessoa demora em torno de 15 dias para ficar protegido.

Mesmo com a vacina, por que razão é importante seguir com as medidas de proteção, como uso de máscaras e aplicação de álcool gel?

A vacina CoronaVac tem eficácia de 50,39%, ou seja, somente a metade das pessoas vacinadas fica protegida. Além disso, para termos sucesso no controle dessa pandemia, faz-se necessário vacinar muitas pessoas para se obter a chamada imunidade de rebanho, ou seja, a proteção coletiva. Resta então continuar com todas as medidas preventivas (higiene das mãos, distanciamento social, evitar aglomerações e uso de máscara). É importante lembrar que a máscara evita a transmissão e protege contra as formas graves, porque a gravidade da Covid-19 também está relacionada à quantidade de vírus a que a pessoa é exposta.

As pessoas que tomarem as duas doses da vacina em 2021 necessariamente terão que tomar reforço? Se sim, este reforço seria daqui a um ano? Quanto tempo depois?

Ainda não se sabe quanto tempo durará a proteção conferida pela Coronavac, mas é possível que sejam necessárias doses de reforço, talvez anualmente como na imunização contra influenza (ou gripe).

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