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Libaneses: chegada maciça e influências no Maranhão

Com registros de vinda para o estado e, em consequência, para a capital maranhense no final do século XIX e início do século XX, descendentes estão angustiados com atual cenário do país
Thiago Bastos / O Estado 15/08/2020
Libanês Salim Nicolau Duailibe e Linda Saddy Duailibe com os filhos; ele veio para o Brasil em 1897, se fixando no Maranhão

São Luís - No dia 4 deste mês a capital libanesa, Beirute, registrou uma explosão que chocou o mundo. Por causa dela, segundo estimativas da imprensa local, morreram pouco mais de duas centenas de pessoas. O fato, registrado devido, supostamente, à concentração excessiva de nitrato de amônia em um galpão na estrutura portuária da cidade asiática, gerou uma série de acontecimentos, desde a queda de gestores públicos do país à revolta da população.

A tragédia suscitou a origem de um povo que, desde suas populações ligadas genealogicamente, tem no sangue a rotina da superação. Se antigamente a população libanesa e seus descendentes buscavam outros continentes, incluindo a América, almejando proteção diante da perseguição religiosa, atualmente os que deixam o país requerem melhores condições de vida.

No fim do século XIX e início do século XX, em especial, o território maranhense – incluindo a capital São Luís – esteve na rota de cidades em que os libaneses objetivavam moradia para retomarem suas vidas. Até hoje, é possível ver os reflexos na capital da influência libanesa na formação do povo local.

De acordo com dados de representantes libaneses no Maranhão, está catalogada a presença de pouco mais de 180 famílias distintas, oriundas do país que mira o Mediterrâneo. Muitos destes representantes e que geraram, em consequência, descendentes por aqui se consolidaram com a forte marca no comércio e exploração extrativista, em especial, no interior.

Sejam os Duailibe, os Abdalla, entre outras famílias, a ligação entre Maranhão e Líbano é contundente. Apesar de distantes territorialmente, a contribuição do país, de forma indiscutível por exemplo, na culinária, faz acender a curiosidade para saber como vivem as famílias, cujas histórias estão ligadas diretamente ao Líbano.

As famílias libanesas e sua inclusão no Maranhão
Em sua maioria, perseguidos por questões de pensamento religioso, algumas famílias de origem libanesa foram obrigadas, inicialmente, a buscar segurança em regiões mais remotas do próprio país. Para manterem-se, muitas das famílias como os Khury, os Sayeg, os Skaff e outros, estimularam a prática de ofícios, como a joalheria e sapataria.

Segundo texto escrito por Francisco Duailibe, representante da família no estado e intitulado “História da Família Duailibe, da Síria ao Maranhão”, no fim do século XIX, os primeiros representantes fogem do país, devido aos conflitos militares. Muitos deles embarcavam por conta própria em navios cujos destinos iniciais eram a região da Amazônia.

Como o Maranhão, nesta época, era o estado considerado a “porta da Amazônia”, vários libaneses por aqui chegaram, preliminarmente, sem nenhuma atividade comercial. Segundo Francisco, um dos Duailibe fez residência no bairro do Anil, em São Luís.

Considerados os fundadores da cidade de Zahle – considerada a terceira maior libanesa e possivelmente incluída no mapa do país, por volta do início do século XVIII depois de Cristo – os Duailibe registraram, a partir do século XIX, residência no Maranhão.

De acordo com o texto histórico, alguns libaneses começaram a atuar como “caixeiros-viajantes”. Vários atuavam, segundo relatos históricos, em um sobrado colonial na Rua de Nazaré, região central da cidade.

Uma curiosidade é que para efetuar a venda dos produtos, sem dominar o idioma, os libaneses colocavam cédulas do dinheiro em uma mala e, quando o freguês escolhia a mercadoria, eles apontavam a cédula correspondente ao valor dela. Desta maneira, efetuavam – de forma bastante perspicaz - a venda sem o conhecimento aprofundado da língua portuguesa.

Enquanto alguns libaneses se fixaram no Maranhão, a partir de atividades ligadas ao comércio em geral, estabelecendo família, adquirindo bens e recursos em geral e, desta forma, ganhando notoriedade na sociedade da época, garantindo a inclusão de vários representantes do país e descendentes na política local, outros se destacaram, em minoria, no comércio e nas atividades extrativistas.

De acordo com pesquisadores, antigas usinas de beneficiamento de arroz e babaçu no estado foram construídas por pioneiros libaneses no estado.

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A consolidação dos libaneses no estado
Na segunda metade do século XX, já era possível registrar a formação de grupos organizados e representativos do Líbano no estado. Reportagem de “O Combate” datada de 14 de junho de 1955 aponta que, naquela data, já havia a presença da chamada Sociedade Líbano Maranhense.

À época, de acordo com publicação do periódico, a entidade se preparava para receber, em solo ludovicense, o embaixador libanês Adib Nahas.

Segundo consta na matéria, publicada em uma terça-feira, no dia 20 do mesmo mês e ano estava prevista a chegada do representante do Líbano na capital. Lideranças importantes como o então deputado César Aboud e Aziz Hiluy (cujo sobrenome estava escrito desta maneira no periódico) compunham o grupo que daria assistência ao convidado internacional.

Dentre os compromissos, estavam reuniões no Hotel Central, visitas à Associação Comercial, à Assembleia Legislativa e uma recepção organizada no então Cassino Maranhense. Segundo dados biográficos divulgados à época, Adib Nahas era natural da cidade de Tripoli, situada a 85 quilômetros da atual capital, Beirute.

Segundo o periódico, Adib fez carreira na área administrativa e seu nome passou a ser mais valorizado após a vitória do Líbano na batalha para sua independência sendo, na ocasião, nomeado para a secretaria-geral do interior. Nesta época, a influência e notoriedade dos representantes libaneses no Maranhão era considerável, como demonstram outros registros antigos.

Bandeira do Líbano

A marca dos Duailibe
Ainda em meados da década de 1950, o jornal “O Combate” registrou o falecimento de Salim Duailibe, identificado como “comerciante aposentado”.

Com residência fixada na Rua Nina Rodrigues, Salim Nicolau Duailibe ganhou importância dada à sua ascensão local. Nascido em 1880 na cidade de Zahle (terceira maior do país), veio para o Brasil ainda jovem, em 1897, onde fixou moradia no Maranhão.

Com pai carpinteiro, Salim decidiu ser padre e pediu para ir até Roma (ITA). Com a negativa do pai, veio para o Brasil. Antes do Maranhão, foi para a casa de um primo no Mato Grosso. Ao ser “maltratado”, Salim saiu do estado na região central e veio para a capital maranhense. Foi trabalhar de mascate, abrindo loja na Rua de Nazaré. Depois, conheceu um português, cujo primeiro nome era Emílio, que cedeu uma parte do sobrado para a montagem de uma loja.

Casou-se com Linda Saddy Duailibe, nascida em 1890, com quem gerou filhos. Ele a conheceu ao voltar para o Líbano, onde foi “atrás de uma esposa”, já morando em São Luís. Salim conheceu Linda em uma procissão. Ao se casar, veio com a esposa para a capital maranhense.

Ele faleceu aos 75 anos, de acordo com “O Combate”, era um “esposo amantíssimo” e colocava-se, quando podia, ao lado dos fracos e pobres. Um dos 13 filhos de Salim era Antônio Salim Duailibe, que constituiu relações com Admée Rodrigues Duailibe.

Antônio Duailibe foi um médico considerado renomado e cuja residência está ainda fixada na Rua do Passeio, nas proximidades do Cemitério do Gavião. A viúva, Admée, ainda se encontra viva e lúcida.

Ela, inclusive, foi personagem de uma recente reportagem especial de O Estado, que tratava da história dos antigos bondes na cidade. “Foi um amor único que levarei comigo à vida inteira”, disse dona Admée ao se referir a Antônio Duailibe.

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