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Perigo ressurge: língua negra volta a ser observada em praias de São Luís

Além da Foz do Rio Calhau, onde o problema costuma ser identificado, situação ocorreu na Foz do Rio Pimenta; lançamento de esgoto in natura tem relação direta com as condições de balneabilidade da orla, que tem 100% dos pontos impróprios
MONALISA BENAVENUTO / O ESTADO21/12/2019
Perigo ressurge: língua negra volta a ser observada em praias de São LuísLíngua negra voltou a surgir na foz do Rio Calhau; água escura e com doro fétido escorre para o mar (De Jesus / O ESTADO)

A língua negra, que ganhou destaque nacional quando foi constatada pela primeira vez, em 2015, voltou a fazer parte do cenário da Avenida Litorânea, em São Luís. A menos de 10 dias das festas de Ano Novo, quando a movimentação na orla costuma ser intensa, o problema é observado em dois pontos da avenida, nas fozes dos rios Calhau, na Praia de São Marcos, e Pimenta, entre as praias do Caolho e Olho d’Água. A situação preocupa quem tem a praia como opção de lazer e assusta turistas que visitam a cidade. A situação reflete, ainda, nas condições de balneabilidade da orla da capital que, de acordo com o laudo mais recente, divulgado pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Sema), apresenta todos os pontos impróprios.

As praias da Grande São Luís são atrativos significativos para quem decide passar as férias na capital maranhense, mas, ao conhecer a orla da cidade, turistas e moradores são recepcionados por imagens que assustam e afastam banhistas da orla. Além da poluição ambiental, fator que mais preocupa quem frequenta o local, o problema gera incômodos visuais e olfativos, devido ao forte odor que o esgoto possui. Na manhã de ontem (20) a quantidade de esgoto despejado nas praias que compõem a Avenida Litorânea chamou atenção e decepcionou a professora e turista paraense, Luara Campos, que escolheu a capital maranhense para aproveitar as férias.

“A gente vem com uma expectativa, porque o que menos frequentamos, por morar em Belém, é praia. Mas, chegando aqui, a gente se depara com essa situação e é decepcionante. As autoridades deveriam se preocupar com esse cartão-postal natural, de grande valia para a cidade, sobretudo porque se trata, também, de uma questão de saúde pública. Praia poluída reflete uma má administração do saneamento básico, e São Luís, por ser famosa em todo o país, e até no exterior, por causa de seu belíssimo e valoroso Centro Histórico, não pode se permitir crescer sem um saneamento efetivo”, destacou turista.

Mas a situação incomoda, também, quem mora na capital e tem as praias como opção de lazer. A empresária Alessandra Ferraz aproveitava a manhã de sol próximo à Foz do Rio Calhau, um dos pontos de lançamento de efluente identificado nesta reportagem, e lamentou a situação que, em sua visão, prejudica a imagem da cidade por serem, as praias, importantes atrativos para turistas e ludovicenses, exigindo maior atenção do poder público.

“Quando às pessoas vêm a São Luís, têm o intuito de conhecer as praias, porque é o forte da cidade. Se as pessoas chegam aqui e se deparam com toda essa poluição, a compreensão que elas têm é que a cidade é suja. As praias são lugares que o Governo do Estado deveria olhar mais. Isso aqui não era para estar assim, é uma das poucas opções de lazer que temos e acabamos nos expondo a problemas de saúde por conta desse problema que já se tornou constante na nossa rotina”, declarou.

A língua negra
O líquido, que estava em contato direto com a praia, pôde ser visto no período da manhã, durante a baixa-mar, por quem passava pela faixa de areia ou mesmo pelo calçadão da orla. A mancha negra cortava a faixa de areia em direção ao mar, diluindo-se na água, a poucos dias das festas que celebram o Réveillon, período em que o litoral costuma ser movimentado.
O fenômeno é caracterizado por especialistas como o possível despejo de esgoto in natura na orla da capital

Essa não foi a primeira ocorrência da mancha negra no litoral de São Luís. Em agosto de 2015, um vazamento de esgoto acabou contaminando o mar. Uma foto circulou rapidamente pela internet e gerou um amplo debate sobre a poluição das praias da capital. A situação teve repercussão nacional e foi veiculado pelos principais jornais do país.

O problema voltou em março de 2016 e repetiu-se em novembro. No início de 2017, assim como em janeiro e abril do ano passado. Neste ano, essa é, pelo menos, a terceira vez que a situação é observada, tendo sido as primeiras em janeiro e setembro. Nessas ocasiões, a Companhia de Saneamento Ambiental do Maranhão (Caema) informou que a presença da “língua negra” era decorrente de falhas em estações elevatórias da companhia.

Ontem, além da conhecida língua negra localizada na Foz do Rio Calhau, na Praia de São Marcos, o problema foi identificado, também, na Foz do Rio Pimenta, entre as praias do Caolho e Olho d’Água, próximo às obras de extensão da Avenida Litorânea. Por lá, além da coloração escura, o intenso odor afugentava quem caminhava pela orla.

Sobre o reaparecimento da mancha na manhã de ontem, o órgão informou, apenas, que “a obra de esgotamento sanitário para interceptação de esgotos na Bacia do Rio Calhau está em andamento com 95% da execução realizada”.

O que diz o especialista
Para entender a origem do problema e como ele pode afetar as condições da orla e a saúde de quem mantêm contato com o mar, O Estado conversou com o consultor ambiental Márcio Vaz. Segundo ele, a principal hipótese é que a situação seja resultado de problemas em estações de tratamento que despejam seus efluentes nos rios Calhau e Pimenta, que deságuam nas praias da Avenida Litorânea.

“Se a língua negra estiver associada ao tratamento de esgoto, ela é uma evidência de falha no sistema. Então, pode ser uma falha na elevatória que transfere esse esgoto para a estação de tratamento, pode ser um vazamento num dos pontos da tubulação, pode ser lançamento de um dos condomínios que tem estação de tratamento de esgoto nas bacias, podem ser várias as possibilidades. Agora, qual que realmente aconteceu, só uma investigação, levantamento, pericia para verificar de onde está vindo. Mas, em tese, ela é exemplo de que o sistema de tratamento e coleta de esgoto teve uma falha em algum ponto e esse esgoto, no lugar de ir para a estação de tratamento de esgoto, foi parar no Rio Calhau e no Rio Pimenta”, esclareceu.

Ainda segundo o especialista, o despejo de esgoto nas praias têm relação direta com as condições de balneabilidade o que, consequentemente, ameaça a saúde tanto de ecossistemas marinhos, quanto de banhistas e frequentadores da orla. “Compromete, sim, a balneabilidade, porque uma das principais fontes de contaminação das nossas praias, é, justamente, a contribuição dos rios que recebem esgotos de áreas de invasão, esgotos que são lançados irregularmente no leito desses rios”, frisou.

Sobre a balneabilidade, O Estado manteve contato com a Sema para questionar quais medidas vêm sendo adotadas para reverter a situação e proporcionar condições próprias para banho na orla da capital, no entanto, até o fechamento desta edição, o órgão não se pronunciou.

Confira os pontos

Pontos impróprios
Praia da Ponta d’Areia

- Ao lado do Forte de Santo Antônio
- Atrás do Hotel Praia Mar
- Atrás do Bar do Dodô
- Em frente a Praça de Apoio ao Banhista
- Em frente ao Edifício Herbene Regadas
- Em frente ao Hotel Brisamar

Praia de São Marcos
- Em frente aos bares Do Chef e Marlene’s

- Em frente a Barraca da Marcela
- Em frente ao Agrupamento Batalhão do Mar
- Em frente ao IPEM e ao Bar Kalamazoo
- Foz do Rio Calhau

Praia do Calhau
- À direita da elevatória II da CAEMA

- Em frente a Pousada Tambaú

- Em frente ao Bar Malibu

Praia do Olho d’Água
- À direita da Elevatória Pimenta I

- À direita da Elevatória Iemanjá II

Praia do Araçagi
- Em frente ao Fátima’s Bar
- Em frente ao Bar Novo Point
- Em frente ao Bar do Isaac

Pontos próprios
Praia do Meio

- Em frente ao Bar do Capiau
- Em frente ao Bar da Praia

NÚMEROS

6 praias analisadas
19 pontos impróprios
2 próprios

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