O Mundo | Violência

No Quênia, mulheres são pressionadas para matarem seus bebês com deficiência

Relatório de ONG internacional expõe alto índice de infanticídio de crianças com deficiência, especialmente na zona rural do país
30/09/2018 às 07h00

QUÊNIA - O filho de Florence Kipchumba não estaria vivo se dependesse da família dela. Quando ele nasceu, sua mãe disse a ela que a criança deveria ser sacrificada.

“Quando era bebê, Meshack chorava muito. Quando minha família não aguentava mais, eu fui expulsa de casa”, contou à BBC News.

Uma amiga lhe ofereceu abrigo, mas também sugeriu que ela matasse o bebê um mês depois. “Ela me pediu para colocar ácido em sua comida para que ele morresse, mas eu me recusei e saí da casa dela.”

A decisão de resistir à pressão teve duras consequências para Kipchumba. Ela foi forçada a deixar sua comunidade e hoje vive com o filho em um barraco de latão, fazendo bicos para sobreviver.

Quando Meshack era mais novo, sua coluna vertebral era frágil e ele não tinha controle da cabeça. “Eu cavava um buraco no chão, colocava ele dentro e usava a terra para formar uma espécie de almofada ao redor dele”, descreve.

Agora, aos oito anos, o garoto consegue sentar e caminhar curtas distâncias, mas com alguma dificuldade.

Um novo estudo diz que 45% das mães entrevistadas por uma ONG no Quênia foram pressionadas a matar seus filhos que nasceram com deficiência.

A situação é pior em áreas rurais – em alguns desses locais, duas em cada três mães chegam a sofrer este tipo de pressão.

Raízes culturais

A maior parte das mulheres entrevistadas pela ONG Disability Rights International diz que seus filhos com deficiência foram considerados “enfeitiçados, amaldiçoados e possuídos” e que prevalecia uma crença de que as mães estavam sendo punidas por seus pecados, incluindo “ser infiel aos maridos”.

A prática do infanticídio tem raízes em antigas tradições e crenças. Uma parteira tradicional de Narok – a sudeste da capital, Nairóbi – disse à BBC que, de acordo com a cultura, crianças com deficiência podiam ser mortas “por amor”.

A ONG também examinou a situação dos orfanatos no país, onde vivem 3.500 crianças, muitas com deficiência.

“O mais revoltante é que o governo está transferindo toda a responsabilidade por essas crianças aos orfanatos... Ao ficar sem vê-los, ninguém pensa neles”, disse a autora do estudo, Priscila Rodriguez.

Em Nairóbi, Anne Njeri, que também nasceu com deficiência, teve a ideia de fazer uma creche para crianças com deficiências físicas e mentais.

“Mas, em uma semana, já tínhamos 11 crianças abandonadas e em um mês, 30”, disse à BBC.

Alguns pais simplesmente deixavam as crianças na creche pela manhã e nunca mais voltavam para buscá-las.

Agora, Njeri cuida de 86 crianças em tempo integral. Ela reclama que não obtém recursos do governo para dar às crianças a infraestrutura necessária.

A BBC tentou contato com o governo queniano, mas não obteve resposta aos pedidos de entrevista.

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