Cidades | Espaço público

Avenida Litorânea: quase 25 anos de histórias e transformações

Inaugurada em 1993, a via simbolizou uma transformação na orla; hoje, é rota alternativa para fugir do tráfego; projeto paisagístico é de Burle Marx
Thiago Bastos / O Estado14/07/2018
Hoje, a Litorânea é alternativa para fugir do tráfego na capital

SÃO LUÍS - Inaugurada no dia 31 de dezembro de 1993, a Avenida Governador Edison Lobão, ou Avenida Litorânea - como é co­nhecida, popular e atualmente -, além de significar uma importante rota alternativa de tráfego da cidade, também simbolizou uma tendência de crescimento e transformação em uma área considerada importante para o território ludovicense. Com 5,5 quilômetros de extensão e atrativos - como as famosas barracas instaladas ao longo da via (63, no total) - , além de ciclovias e áreas de esporte e lazer, a Litorânea sediou eventos como os famosos carnavais fora de época (em especial o Marafolia), foi usada para sustentar famílias por trabalhadores informais, foi área de crimes emblemáticos (como a mor­te do jornalista e blogueiro de O Estado Décio Sá e do delegado Stênio Mendonça) e poderia ser ainda mais fundamental, caso a via se prolongasse para o restante da orla de São Luís (para as praias do Olho d’Água, do Meio e Araçagi).

O projeto paisagístico da via foi elaborado por Burle Marx e, no começo, era iluminada com torres de mais de 20 metros de altura. O plano da obra foi montado ainda durante o governo Luiz Rocha, que administrou o estado após o regime militar entre os anos de 1983 e 1987. Durante a sua gestão, além dos serviços importantes de terraplanagem e compactação do solo, também foram trazidas as pedras usadas para a ornamentação e contenção da área das dunas. De acordo com a equipe que participou dos trabalhos, estas pedras vieram da cidade maranhense de Rosário.

Avenida Litoranea
O mesmo ponto em dois momentos: antes e depois da construção da Litorânea

Após o projeto permanecer em segundo plano durante a gestão do então governador Epitácio Cafeteira, os trabalhos foram retomados na gestão de Edison Lo­bão. De acordo com os engenheiros responsáveis pela obra, os serviços custaram ao todo R$ 40 milhões. Deste total, 90% foram provenientes de recursos próprios do Estado do Maranhão e outros 10% eram do Governo Federal.

Assim que foi construída, de acordo com o projeto original, a Litorânea era formada por pista dupla, 2.600 vagas para estacionamento de carros, calçadão em pedra portuguesa, ciclovia e áreas de esporte e lazer. A via ligava, assim como hoje, a Praia de São Marcos às praias do Calhau e Caolho.

Para o hoje senador Edison Lobão, a Avenida Litorânea foi fator imprescindível para o desenvolvimento da cidade. “A Avenida Litorânea teve e tem uma importância fundamental para o tráfego, o turismo e o lazer da nossa população, além de trazer um ar de modernidade à nossa capital, valorizando toda aquela região praiana. Hoje seria inconcebível pensar em São Luís sem a Avenida Litorânea. Essa é uma das obras de que mais me orgulho de ter realizado em São Luís”, disse.

Segundo os engenheiros da equipe de construção, o projeto contemplava não somente os 5,5 quilômetros feitos de São Marcos ao Caolho, e sim a extensão da via até o Araçagi, o que daria aproximadamente 20 quilômetros de pista. O projeto não foi feito na íntegra, pois encontrou vários empecilhos de ordem burocrática, como a liberação dos registros de autorização ambiental.

Já a ordenação dos bares foi feita à época pela administração municipal. No entanto, houve um empecilho neste processo. Entre as gestões de Luiz Rocha e Lobão, algumas pessoas se apropriaram da área para construção de bares, o que impossibilitou, por exemplo, que a pista feita a partir da área do parquinho no sentido São Marcos/Caolho tivesse a mesma extensão daquela construída do parquinho até a Praça do Pescador.

Carnavais inesquecíveis
Uma das principais e imediatas transformações efetivadas a partir da inauguração da Avenida Litorânea foi a migração das festas tradicionais de Carnaval para a orla da cidade. Dois meses após a inauguração, a direção da então entidade Maratur - Empresa Maranhense de Turismo - organizou uma programação que incluiu a apresentação de três trios elétricos instalados em pontos fixos da via. Segundo o órgão ligado, até então, às ações para atrair novos visitantes à cidade, a Litorânea seriam uma opção às festas de folia de momo que eram organizadas em locais mais conhecidos, como o Centro Histórico. Clubes da cidade, como Jaguarema, Lítero e Casino começaram a perder força, de acordo com historiadores e especialistas na área da cultura, a partir da passagem da festa para a orla.

Foi neste período que blocos conhecidos do grande público amante da festa, como Ilha, Xique e Tchequerê começaram a surgir. O grande impulso para a realização de carnavais na via ocorreu seis meses após a entrega da nova pista, durante as comemorações da Copa do Mundo de 1994. Foi neste período que uma turma de amigos comemorava as vitórias do Brasil ao som do trio Ilha. A ideia deu tão certo que, no ano seguinte, foi proposta a promoção de um evento anual com as principais atrações nacionais voltadas para as micaretas. Neste contexto, nasceu o Marafolia, uma das micaretas mais famosas do país e que foi organizada entre os anos de 1995 e 2008.

Uma das sócias da empresa organizadora do Marafolia, a produtora e jornalista Dulce Britto lembra da importância do Marafolia para o desenvolvimento da cidade. “Tenho orgulho de ser parte dessa história. O Marafolia foi gerador de riqueza, tanto do ponto de vista econômico, quanto cultural e afetivo”, disse.

Avenida Litorânea após a inauguração, na década de 1990

Na primeira edição, três blocos famosos deram o tom da festa. Fo­ram, eles: Ilha, Nana Banana e Xique. Bandas como Chiclete com Banana, Pimenta Nativa e Cheiro de Amor passaram pela avenida arrastando uma multidão que contava as horas para as apresentações. Nas edições seguintes, outros blocos surgiram, como o Carrapicho - com o cantor Betto Pereira - e o Xereta, este último bloco infantil.

Em 1998, a Avenida Litorânea recebeu 650 mil pessoas durante três dias de festa em um circuito montado por dois quilômetros da via. Nesta edição, além dos grupos já consagrados, a cultura local tam­bém teve espaço com o Blocão do Bicho e a Jamaica Brasileira foi representada pela Banda Reprise. O Bicho Terra, manifestação do Maranhão, também teve lugar cativo na festa.

Prolongamento chegou à Justiça

Se o projeto original da Avenida Litorânea, elaborado há quase 25 anos, previa inicialmente a construção da via até a praia do Araçagi, em meados de 2009 o poder público decidiu finalmente tomar a iniciativa e executar a extensão da via, que deveria chegar até os arredores da praia do Olho d’Água ao menos. Inicialmente, de acordo com informações da então gestão da Prefeitura de São Luís, deveriam ser feitos 1.180 metros de nova pista, com a aplicação de pouco mais de R$ 17,5 milhões. Na prática, da distância divulgada, pouco mais da metade (600 metros) foi feita e o que deveria ser um novo marco para a transformação da área por onde a via corta representou mais um serviço incompleto da administração pública da cidade.

Antes das obras, o prolongamen­to da Avenida Litorânea passou por grande imbróglio jurídico. Assim que apresentou o projeto de ampliação da pista, o juiz Carlos Henrique Veloso suspendeu todos os atos posteriores ao processo de licenciamento ambiental da obra, neces­sário para a execução dos serviços por se tratar de espaço protegido pela legislação ambiental.

Dian­te disso, o Ministério Público Federal (MPF) moveu à época ação na Justiça contra a Prefeitura de São Luís, responsável pelos trabalhos, com a finalidade de verificar o Estudo de Impacto Ambiental e o Relatório de Impacto do Meio Ambiente.

Mesmo diante dos pedidos, em maio de 2012, o então prefeito de São Luís, João Castelo, assinou a Ordem de Serviço para os trabalhos, que começaram no mesmo mês. Com a medida, o gestor descumpria - de acordo com o MPF - decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) sobre o tema. Segundo o MP, houve irregularidades na contratação, por parte da administração pública, da empresa que elaborou o projeto que incluiu a liberação para a exploração ambiental da obra.

Sem a conclusão dos 1.180 metros prometidos, a via até o momento é interligada em sua área de prolongamento com a rua Vale do Pimenta, que dá acesso a avenidas como a Daniel de La Touche. O prolongamento também faz conexão com a MA-203 - Avenida dos Holandeses -, em que nela é possível ir para bairros como Calhau, por exemplo, e até mesmo para outros municípios, como Raposa e Paço do Lumiar.

Melhorias ao longo dos anos
Apesar de pendências em projetos de melhorias, com o passar dos anos a Litorânea sofreu transformações e passou por incrementos. Em março de 2014, por exemplo, a Prefeitura de São Luís instalou por toda a via nova iluminação pública. Segundo informações do Município, foram colocadas 880 luminárias de LED – sendo cada uma delas com 150 watts de potência - e expostas com 200 armações decorativas em estilo veleiro, além de 144 refletores colocados na faixa de areia. Até então, a iluminação na via era feita de forma precária.

Outra melhoria ocorreu no fim de 2014, assim que a Avenida Litorânea comemorou 21 anos de inauguração. Em obra do Governo do Maranhão, foi entregue o novo calçadão da via, cujos serviços foram disponibilizados pelo então governador da época, Arnaldo Melo. Segundo informações do Governo, foram aplicados R$ 5 milhões.

Após a sua construção, a Litorânea chegou a ser conhecida como “Avenida Blecaute”. Isso porque diariamente, de acordo com comerciantes, havia uma queda repentina da iluminação pública instalada na orla. “Era um barato e, ao mesmo tempo, um transtorno. Toda vez que dava sete da noite, você podia ir à Avenida Litorânea que ela tava toda escura”, confidenciou o empresário José Cícero Quintanilha, conhecido entre os clientes como JC.

Raio-x da Avenida

Nome: Avenida Litorânea (Avenida Governador Edison Lobão)
Extensão: 5,5 km
Vagas para estacionamento: 2.600
Barracas: 63
Valores aplicados no projeto: R$ 40 milhões
Data de inauguração: 31 de dezembro de 1993

Fonte: Governo do Maranhão (Arquivo)

Leia mais notícias em OEstadoMA.com e siga nossas páginas no Facebook, no Twitter e no Instagram. Envie informações à Redação do Jornal de O Estado por WhatsApp pelo telefone (98) 99209 2564.

© - Todos os direitos reservados.
Tamanho da
Fonte