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Informalidade é alternativa para quem perdeu emprego com a crise

Desempregados, trabalhadores garantem renda como vendedores ambulantes, solução que se torna comum em tempos de crise; maior concorrência dificulta recolocação no mercado de trabalho, mesmo para quem tem experiência
Jock Dean05/03/2016
Alberto Rodrigues dribla o desemprego com a venda informal de balas e chocolates; ele apostou na venda informal depois que perdeu o emprego

Acordar cedo, separar chi­cletes de chocolates, paçocas dos bombons e esperar a clientela. Esta tem sido a rotina de Alberto Rodrigues, desde que ele perdeu o emprego de auxiliar de serviços gerais. Com casa para manter e esposa para sustentar, “teve que se virar”, como ele mesmo diz. A saí­da encontrada por ele foi o comér­cio informal. E ele não está sozinho. A crise econômica e o au­mento do desemprego estão empurrando uma parte da população para a informalidade e, em meio ao crescimento do número de demissões e à menor oferta de vagas, muitas pessoas estão tendo que encarar um emprego sem carteira assinada.

Alberto Rodrigues trabalhou durante quatro anos como contratado de uma empresa terceirizada que prestava serviços na área de limpeza e conservação. Anualmente, o contratante renovava o acordo com a terceirizada, mas, quando chegou a época da renovação, em maio, o contratante não teve como fazer a renovação, pois precisava cortar gastos. “Com isso, eu não tive mais como continuar na empresa e fui demitido”, informou.

Só que a demissão não foi o úni­co problema enfrentado por Alberto Rodrigues. A empresa para a qual ele prestava serviço não pa­gou os direitos trabalhistas. Então, além de ficar sem emprego, ele fi­cou sem dinheiro para se manter nos primeiros meses da demissão. “E eu não encontrei emprego na minha área desde que fui demitido. Está muito difícil conseguir uma vaga de trabalho, hoje em dia”, comentou.

Arrisca tudo
Tendo contas para pagar, ele decidiu se arriscar em uma área na qual não tinha qualquer experiência: o comércio informal. Com o pouco dinheiro que tinha, ele comprou bombons e doces variados e montou uma pequena ban­ca para vender o produto. “Era a coisa mais fácil que eu poderia fa­zer, porque não tinha muita experiência em outras áreas, e dependendo do investimento que a gente faz dá para tirar o do sustento”, afirmou. Com a banca, em um mês bom, ele consegue tirar até um salário mínimo mensal.

Breno Silveira tenta voltar ao mercado de trabalho com visitas insistentes ao Sine, em busca de vagas

A escolha de Alberto Rodrigues pelo comércio informal seguiu uma tendência natural. O aumen­to da taxa de desemprego em 2015 foi acompanhado pelo crescimen­to da informalidade e de atividades autônomas, como costuma ocorrer em períodos de crise, conforme constatou a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em janeiro deste ano com dados relativos a dezembro do ano passado.

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Crise afeta a informalidade
Só que a crise econômica continua sendo um problema na vida de Alberto Rodrigues, pois nos últimos meses o preço das mercadorias que ele vende ficou mais caro e o investimento que ele precisa fazer todo mês passou a ter um gosto salgado para o comercian­te. “Quando comecei, eu comprava uma das balinhas a R$ 4,00 o pacote. Agora já está R$ 6,00 e a gente não pode aumentar mui­to o preço porque se não as pessoas não compram. O jeito é diminuir um pouco o lucro para garantir a renda do mês”, explicou.

Enquanto Alberto Rodrigues conversava com O Estado, observamos uma negociação simples, mas que ilustra bem a rotina do ambulante para garantir a renda do mês. Uma cliente pediu R$ 1,00 de bombons sem açúcar vendidos por Alberto Rodrigues. A unidade sai a R$ 0,15. Logo, ela receberia apenas seis unidades e teria direito a R$ 0,10 de troco. O ambulante resolveu dar a ela sete balas, mas ela perguntou por-que ele não fazia oito a R$ 1,00. “Eu te dando sete por R$ 1,00 perco só R$ 0,05. Se te der oito, perco R$ 0,20”, explicou. Ela retrucou. “En­tão, me dá oito que eu te dou mais R$ 0,10”. Venda feita. Quando ela foi embora, ele comentou: “É preciso negociar, porque cada centavo faz diferença nos dias de hoje”.

Mas Alberto Rodrigues ainda pensa em voltar para o mercado formal. “Eu estou aqui porque a gente precisa se virar para pagar as contas. Ainda não estou trabalhando de carteira assinada por que está difícil arrumar emprego. Se já está ruim para quem tem estudo, imagine para mim, que não terminei o ensino médio”, disse.

Jovens sem emprego
E ele tem razão. Em 2015, o auxiliar administrativo Breno Silveira, 23 anos, recebeu a notícia mais temida em tempos de crise: a empresa em que trabalhava faria cortes na equipe e ele acabou ficando desempregado. Ele, que está concluindo o curso de Direito, aproveitou o ano passado para focar nos estudos. Desde o início de 2016, está tentando voltar ao mercado de trabalho e, apesar de já ter experiência e estar praticamen­te formado, ainda não conseguiu encontrar outro emprego. “Por causa da crise, a concorrência está bem maior agora”, comentou.

E ele não é o único jovem nessa situação. Um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que a falta de trabalho para a faixa etária de 16 a 29 anos saltou de 12,8% para 15,7% de entre março de 2014 e 2015, no Brasil.

Por causa da maior concorrência, as empresas também estão avaliando mais os candidatos a uma vaga de emprego. “Nas diversas entrevistas a que fui este ano, percebi que as seleções e entrevistas de emprego estão bem mais longas, bem mais detalhistas, e isso também dificulta, porque o candidato que tiver alguma vantagem mínima que seja em relação a você tem mais chances”, afirmou Breno Silveira.

Enquanto não consegue uma nova colocação no mercado de trabalho, Breno Silveira bate pon­to na Agência de Trabalho do Sine, em São Luís. “Não estou buscando vaga apenas na área em que já tenho experiência, auxiliar administrativo, ou da minha formação, Direito. Estou analisando toda vaga que surge, mas mesmo assim está difícil. Como eu comecei a buscar emprego mesmo a partir do começo deste ano, acho que devo conseguir algo ainda este semestre. Vou torcer”, contou.

SAIBA MAIS
Crescimento

Desde 2003, ano em que a economia informal no Brasil começou a ser monitorada, 2015 foi o primeiro em que o Índice de Economia Subterrânea não teve diminuição ante o valor anterior. De acordo com o estudo desenvolvido pelo Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (ETCO), em conjunto com o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV/IBRE), o mercado informal movimentou R$ 932 bilhões em 2015 – ou 16,1% do PIB. Este valor representa a mesma porcentagem que foi vista em 2014 para o índice.

NÚMEROS

1.995 postos de trabalho foram fechados em São Luís em janeiro deste ano
3.241 postos de trabalho foram fechados no Maranhão em janeiro deste ano
2.048 postos de trabalho foram fechados na construção civil em janeiro de 2016, no Maranhão
16.489 postos de trabalho foram fechados em no Maranhão em 2015

DICAS
Como se reposicionar no mercado de trabalho

1. Amplie sua rede de relacionamentos a cada momento, isto é, trabalhe o seu network, lembrando que este não deve ser utilizado somente nas necessidades. Assim, esteja pronto também para ajudar e nunca deixar de ser lembrado.
2. Defina a estratégia para que possa desenvolver sua autoapresentação, de forma transparente, segura e que demonstre preparo.
3. Crie interesse por parte do entrevistador, por meio de um Curriculum Vitae bem elaborado, com ordem e clareza na apresentação descrita e verbal, apresentando quais seus objetivos e seu potencial.
4. Cuidar da imagem pessoal é tão importante quantos os demais itens, demonstram autoestima e amor próprio, pois primeiro temos de gostar de nós mesmos para depois gostar do que fazemos.
5. Busque conhecimento e informações além de sua formação, a fim de manter-se atualizado diante das mudanças de mercado.
6. Conheça as empresas que têm interessem em buscar oportunidades, analisando seus produtos ou serviços, estrutura e sua colocação de mercado.
7. Tenha transparência e autenticidade, pontos que atraem as empresas. Portanto, não queira construir um personagem. Seja você mesmo. Demonstre seu valor nas competências técnicas e comportamentais.

Agência de trabalho do Sine

Criado em 2000, o Site Nacional de Empregos (Sine) é um serviço de utilidade pública e atua como um classificado online de vagas de emprego, em todo o Brasil. No Maranhão, para ofertar as vagas pelo Sine, a Secretaria de Estado do Trabalho e Economia Solidária (Setres) trabalha junto a empresas cadastradas, que não pagam qualquer ônus pelos serviços oferecidos pelo Sine, tais como banco de currículos, seleção profissional, disponibilização de espaço para processos seletivos e/ou treinamentos profissionais. O contato com o setor responsável nas agências presentes em cada município pode ser feito por meio
dos contatos abaixo relacionados. Todos os dias são divulgadas a quantidade e quais as áreas de vagas disponíveis na capital e para fazer entrevista é preciso estar cadastrado. A Agência de Trabalho do Sine de São Luís fica localizada na Rua do Sol.

Cadastro presencial e pela internet

Comparecer ao posto com os seguintes documentos: Carteira de Trabalho; Cartão ou Número do PIS; Identidade; CPF; Comprovante de Residência e Comprovante de Escolaridade. O trabalhador pode ainda se cadastrar no Portal Mais Emprego, do Ministério do Trabalho, para verificar vagas de emprego sem sair de casa, e ainda se candidatar para a vaga que aparecer no seu perfil, tendo somente que comparecer ao posto do Sine mais próximo de sua residência para pegar a Carta de Encaminhamento.

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