Opinião

Especialistas dizem que linchamentos são resposta à ineficiência do poder público

De acordo com o sociólogo, o Brasil pode ser o país que mais lincha no mundo; três casos aconteceram em São Luís na semana passada
Adriano Martins / OESTADOMA.COM14/07/2015 às 10h14
Cleidenilson Pereira Silva foi linchado na segunda-feira (6) em bairro de São Luís (linchamento)

A turba ensandecida puxa a mulher pelos braços, a carrega pelas ruas e a joga no chão. Todos de pedras nas mãos se preparam, legalmente, para executá-la. O homem escreve com o dedo na terra alheio a tudo aquilo e quando os algozes insistem na morte, já que a jovem fora pega em flagrante no crime, ele simplesmente responde: "Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela.” Dois mil anos depois, milhares e milhares de quilômetros distante de Jerusalém, um jovem foi pego em flagrante delito, mas dessa vez, em uma sociedade onde a grande maioria professa a fé do homem que afirmou que amar ao próximo é tão importante quanto amar a Deus, não houve quem reparasse em seu próprio pecado.

A psicóloga e psicanalista, professora da Universidade Guarulhos, Helenice Oliveira Rocha, explica que a violência é um fenômeno humano, mas ao longo da evolução, o processo civilizatório tem se encarregado de diminuir suas manifestações com a implementação de um contrato social que mantenha a própria civilização. Contudo, em tempos de insegurança, a aprovação e a participação em atos de linchamento aumenta. "Nesse caso, uma espécie de paradoxo se instala: rompe-se com a lei para se fazer a própria lei. Mas é bom lembrar que nem todos aplaudem ou participam desse tipo de situação”, ressalta a pesquisadora.

Pesquisa - De acordo com o sociólogo José de Souza Martins, especialista que estuda o fenômeno do linchamento no país, o Brasil, possivelmente, pode ser o país que mais lincha no mundo. Sua pesquisa, uma das mais completas no mundo, e que abrange um período de quase 70 anos da história brasileira, aponta que nos últimos 60 anos mais de 1 milhão de brasileiros participou de um ato ou tentativa de linchamento. "O linchamento é um crime altruísta, ou seja, um crime social com intenções sociais. O linchador age em nome da sociedade. É um homem de bem que sabe que está cometendo um delito e não quer visibilidade. Por outro lado, no Código Penal brasileiro não existe o crime de linchamento, somente o homicídio. Então, ele não aparece nas estatísticas. Os casos são diluídos. Estimo que aconteçam de 3 a 4 linchamentos no País por semana, na média. São Paulo é a cidade que mais lincha. Depois, vêm Salvador e Rio de Janeiro”, afirmou o pesquisador em entrevista ao portal Humanitas, da Universidade Unisinos.

Autora do livro o Ideal: um Estudo psicanalítico, publicado pela Vetor Editora, Helenice Rocha, destaca que todos os que apoiam a prática do linchamento, e também outras práticas de violência, e aqui ela inclui até mesmo o apoio à redução da maioridade penal, são os que se sentem mais afetados pelo sentimento de ineficiência do Estado para dar conta das demandas sociais e portanto mais afinados com a ideia da ruptura do pacto civilizatório. "Assim, há os complacentes, os que incentivam e os que participam, mas há também os que abominam e trabalham para que isso não ocorra. Estes últimos, ao contrário, são indivíduos mais afinados com a ideia da manutenção desse mesmo pacto, indivíduos que acreditam em outros dispositivos que não seja o retrocesso à lei de Talião”, explica.

Rafael Torres de Cerqueira, psicólogo e mestre em Saúde Coletiva, afirma que embora as vítimas de linchamento estejam envolvidas em ações criminosas, não é a gravidade do delito que impulsiona o linchamento. Para ele, na realidade, o que a motivaria o ato seria a descrença nas instituições de controle social (polícia, justiça, prisão), aliada à insegurança contra a violência, ao desemprego, à falta de transporte, à falta de saneamento, entre outras causas.

"O que moveria a turba linchadora seria a experiência direta ou indireta da vitimização criminal ampliada e reproduzida pelo discurso do crime. Esse discurso enfatizaria a criminalidade como o principal flagelo da sociedade, relacionando-a intimamente com a pobreza. Criar-se-iam, assim, os estereótipos sobre a pobreza e a criminalidade que alimentariam o medo do crime, entendido pela população urbana como uma doença incurável a necessitar de medidas drásticas para a sua eliminação”, argumenta.

Não menos importante é lembrar, no momento da tragédia ocorrida com esse jovem, de sua condição social e da cor da sua pele. Jovens brancos, de classe média não são linchados. Podem queimar índio ou fugir depois de atropelar um ciclista que, ainda assim, não despertam a ira dos indignados, dos autoproclamados 'cidadãos de bem’Helenice Oliveira Rocha, psicóloga e psicanalista

SAIBA MAIS

A expressão “linchamento” deriva da história de um fazendeiro norte-americano da Virgínia, Charles Lynch, que dirigia uma pequena organização destinada a julgar e punir bandidos e simpatizantes dos colonizadores ingleses, durante as lutas da independência americana. Tal método prosperou na expansão norte-americana para o Oeste, como forma de justiça sem formalidades, rápida e direta e, mais tarde, como forma de intimidação aos negros libertos, para mantê-los submissos.

No Brasil, os linchamentos já apresentaram, sobretudo no século XIX, uma conotação diretamente racial, como nos EUA; contudo, sua motivação foi modificada ao longo do tempo. Atualmente, em nosso país, essas ações violentas aparecem, sobretudo, como uma atitude de combate ao crime e à criminalidade.

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